Epidemia piora com falta de agentes

Número de profissionais na capital caiu e é 40% inferior ao mínimo recomendado pelo Ministério da Saúde

Uma série de fatores explica a grave epidemia de dengue que atinge Goiânia e que coloca Goiás em primeiro lugar na incidência da doença no País, de acordo com o último boletim da Secretaria Estadual de Saúde e com o balanço do Ministério da Saúde. Dentre eles, está o fato de Goiânia ter 40% menos agentes de combate aos focos de dengue do que o Ministério da Saúde (MS) considera necessário. De 2010 pra cá, a Prefeitura reduziu o número de agentes de endemias em 19%.

Os casos explodiram este ano na capital e já estão bem próximos da totalidade registrada em 2013, ano da pior epidemia ocorrida na capital até agora. Para os especialistas, o agravamento do problema se deve ao reduzido número de agentes de endemias, à natureza excepcional do mosquito transmissor, à mutação do vírus, ao prolongamento do período chuvoso, à baixa adesão da população ao combate ao Aedes aegypti e à ineficácia das campanhas educativas (leia mais no quadro).

Na opinião do médico infectologista Boaventura Braz de Queiroz, o aumento do número de casos tem uma relação direta com o déficit de agentes de combate aos focos do mosquito nas casas. Para o médico, ex-diretor do Hospital de Doenças Tropicais (HDT), referência na área, a atual epidemia reflete o descaso dos governos com a prevenção. "Como 2014 era um ano de eleição, os governantes estavam com a atenção mais voltada para a saúde como política do que com a política para a saúde".

Número ideal

Do total de agentes registrados no Departamento de Recursos Humanos da Prefeitura de Goiânia, 568, cerca de 50 estão afastados, afirma o diretor de Vigilância e Controle de Zoonoses da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Edson Almeida Gomes. Os que efetivamente visitam as casas em busca de criadouros somam 379. De acordo com o Programa Nacional de Controle da Dengue (PNCD) do MS, o município deveria dispor de no mínimo um agente para cada grupo de mil casas. O ideal seria um para cada 800 residências - ou 794, no caso dos que fazem as visitas às casas.

Para atingir o mínimo de visitas que o MS aponta como indispensável, a Prefeitura recorreu aos agentes de saúde da família, relata a diretora de Vigilância em Saúde da SMS, Flúvia Amorim. Assim, o município chegou a "80% das seis visitas por ano". Do total de 635 mil residências goianienses, os agentes visitaram 566,5 mil nos últimos dois ciclos de dois meses.

Na opinião de Edson Gomes, o problema do combate à dengue em Goiânia está na falta de pessoal: "A cidade cresceu nesses cinco anos e a equipe que controlava o mosquito da dengue diminuiu".

Para a pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz Denise Valle, a adesão da população é mais importante até que a ação dos agentes de endemia. Segundo ela, no auge da época de reprodução do Aedes, nos meses quentes e chuvosos, o ovo atinge a fase adulta em 7 a 10 dias. "Uma visita a cada dois meses não é capaz de bloquear a proliferação."

Gomes ressalta que toda vez que o agente retorna a uma residência ele encontra a mesma situação de dois meses atrás. "O morador não acompanha o agente para aprender a eliminar os criadouros." Ainda de acordo com Denise, uma campanha educacional maciça antes do início da chuva tem o efeito de reduzir a infestação em até 30%. "Afinal, 80% dos focos estão dentro das casas."

 

Fonte: O Popular