Dólar em alta puxa preço do pão

Reflexo da desvalorização do real, o carro-chefe das panificadoras deve sofrer reajuste de 9%

Numa espécie de efeito dominó, as principais bolsas do mundo desabaram ontem preocupadas com o menor apetite da economia chinesa. Com o alvoroço, o dólar atingiu cotação de R$ 3,55. Depois das viagens para o exterior, produtos importados e cosméticos sofrerem com essa disparada da moeda, agora é a vez do pão francês sentir os reflexos da desvalorização do real. A perspectiva é que, em média, o carro-chefe das panificadoras aumente 9% no próximo mês.

A estimativa é do Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria do Estado de Goiás (Sindipão). Segundo o presidente da entidade, Luiz Gonzaga de Almeida, o setor ainda está conseguindo segurar os preços do pão francês em função da diversificação de outros serviços ofertados pelas panificadoras como café da manhã, sopas, almoços e até hortifruti. "Assim não perdemos venda, mas com o dólar nas alturas esse valor deve ser reajustado", calcula.

Outro ponto levantado é que o setor é altamente competitivo. O preço médio do quilo do pão francês vendido em julho em Goiânia, conforme último levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), é de R$ 9,45, mesmo valor de janeiro. Com o aumento, o preço médio vai para R$ 10,30.

O proprietário da MegaPane Panificadora, Roberto Batista Leite, lembra que a elevação de 44,16% da tarifa de energia elétrica e 19,56% da tarifa de água e esgoto este ano são outros componentes que contribuem para um esperado aumento do produto. "Não dá para saber quanto será esse aumento, mas estamos aflitos com a questão do trigo também", avalia. Ele explica que o valor mais barato adquirido este ano pelo saco de 25 quilos do trigo foi de R$ 47, mas já comprou até por R$ 60. Para equilibrar a balança, o quilo do pão francês em seu estabelecimento saiu de R$ 9,90 para R$ 10,90.

Amargando queda de 50% nas vendas somente este ano, o proprietário da Panificadora Leão, Carlos dos Santos, afirma que vai tentar, ao máximo, manter os preços. "Antes as pessoas compravam o pãozinho e levavam outros produtos, como pão de queijo e broa. Agora, levam só o pão e em quantidade menor", lamenta. Antes gastava 3 quilos de sacos de farinha por dia, agora, utiliza um quilo e meio da matéria-prima.

Além do preço do trigo ser atrelado ao preço do dólar, o País não é autossuficiente na matéria-prima. Segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a perspectiva é que o País colha este ano 7 milhões de toneladas de trigo. Apesar da boa safra, a estimativa é que importe outras 5 milhões de toneladas, sobretudo da Argentina e Estados Unidos, para abastecer o mercado interno.

Commodities

Os efeitos da pisada no freio do dragão asiático também pode ter reflexo nos contratos futuros das exportações de Goiás. A China é o maior comprador do Estado no complexo de soja, ferroligas, carne bovina e de aves, além de couros e derivados. Sozinha importou 37% de tudo aquilo que o Estado vendeu para fora no mês de julho, somando US$ 243,2 milhões, conforme dados da Secretaria de Gestão e Planejamento.

Segundo a professora de economia da Universidade Federal de Goiás (UFG) Andréa Lucena, em momentos de instabilidade, os empresários tendem a aguardar o desenrolar da crise e muitos compradores podem emperrar negócios. "Contratos de commodities são feitos antecipadamente e o mercado já vem comedido", explica. Por outro lado, complementa, a elevação da cotação do dólar pode mitigar a queda no volume das exportações.

 

Fonte: O Popular