Proteção social pode amenizar efeitos da crise

População crescendo mais devagar e Bolsa Família ajudam a diminuir o impacto no PIB per capita

A rápida transição demográfica que o Brasil vive com o envelhecimento da população e o colchão de proteção social criado nas últimas décadas podem amenizar os efeitos da recessão atual, afirmam especialistas.

Os números do PIB do terceiro trimestre mostraram que a recessão de agora se assemelha à dos anos 1980, mas a diferença é que a população vem crescendo cada vez mais devagar.

Naquela década, a taxa de expansão anual da população brasileira girava em um patamar de aproximadamente 2%. Hoje é a metade: 1%. Com isso, o PIB per capita - relação entre a riqueza produzida no País e seus habitantes - cai com menos intensidade. Além disso, seguro-desemprego, Bolsa Família, benefícios previdenciários e serviços universais de saúde e educação não eram realidade há 30 anos atrás.

Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores fez as contas. Diante do crescimento populacional menor, o PIB precisaria recuar bem mais agora para ter a mesma queda da renda per capita dos anos 1980. Ele afirma que, para comparar períodos tão distantes no tempo,é preciso olhar para a dinâmica da população.

"Enquanto a população crescia a 2% ao ano nos anos 1980, hoje esse ritmo é de 0,8% ao ano. Estamos vivendo mais uma recessão típica no país, mas a dimensão ainda não é das recessões mais severas dos anos 1980. Para se equiparar, seria necessária uma queda do PIB de 6,5% em 2016, depois de uma perda de 3,7% em 2015", diz Borges.

Sua projeção é que o PIB per capita registre queda de 4,5% em 2015 e de 2,5% em 2016. Entre o segundo trimestre de 2014 e terceiro de 2015, o país já registrou uma perda de 7% no PIB per capita, segundo Borges.

Proteção social

Dessa vez, a piora no bem-estar social pode ser menor, reforça o economista Sergei Soares, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ele cita o Japão como exemplo. "A economia está estagnada no Japão há mais de dez anos, mas o desemprego não sobe e a renda cresce. A população do país cai 1,5% ao ano", avalia o economista.

A proteção social é outra diferença positiva. A economista Sonia Rocha, especialista em pobreza e desigualdade do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (Iets), lembra do aumento recente da renda recente e da redução da desigualdade para comparar os dois período: "É mundo muito melhor. Para todos a renda subiu, mas na base da pirâmide subiu muito mais. Os mais pobres, que vão sofrer mais com a crise, têm um hoje nível de renda mais confortável que nos anos 1980."

O efeito da valorização do salário mínimo em alguns setores contam pontos. "Com o crescimento menor da população, as famílias estão menores e as pessoas envelheceram. Mas os idosos estão protegidos pela Previdência. A taxa de pobreza entre eles é baixíssima."

 

Fonte: O Popular