2016 será o segundo ano de recessão, afirmam economistas

A boa notícia é que apesar do tombo, a economia estará melhor em relação a 2015

O ano de 2016 ficará marcado na História: será o segundo ano de recessão, o que não ocorria desde a década de 1930. Os analistas acreditam, porém, que o tombo será menor do que o de 2015. O PIB, o que produzimos em um ano em bens e serviços, deve cair 2,8% em 2016, menos que os 3,7% esperados este ano. O mercado de trabalho tende a piorar. Como os efeitos da crise aparecem mais tarde na taxa de desemprego, as projeções são de taxa perto de 10%. Neste ano, 1,5 milhão perdeu o emprego com carteira assinada no Brasil.

"Para 2016, projetamos queda de 3% do PIB. Não vemos reversão em qualquer fundamento importante que possa mudar esse quadro. A confiança continua em queda tanto de consumidores como de empresários, houve deterioração clara do mercado de trabalho, com tendência de alta de desemprego. Projetamos queda da renda real de 4%, taxa de desemprego se aproximando de 10% e inflação próxima de 7%", diz Alessandra Ribeiro, economista da Tendências Consultoria, que espera reação na economia somente em 2017.

Mesmo sem muito otimismo, André Biancarelli, professor do Instituto de Economia da Unicamp, avalia que 2016 ainda está por ser construído. "Com a saída do ministro Joaquim Levy, não há esperança de guinada completa na política econômica, mas pode vir um uso mais inteligente da política fiscal, com a recuperação do espaço para o investimento público. Não é padrão brasileiro ter recessões profundas e continuadas", afirma.

Mesmo com todos os modelos de estimativas empregados pelos economistas, ninguém foi capaz de prever o tombo histórico que a economia brasileira sofreu este ano. No início de dezembro de 2014, os mais de cem analistas ouvidos pelo Banco Central semanalmente ainda esperavam que o país crescesse 0,73%, o que significava um ganho de fôlego em relação ao 0,13% de 2014. O PIB deve retroceder quase 4% este ano, na maior recessão desde o confisco imposto pelo então presidente Fernando Collor, nos anos 1990.

"Foi um ano desastroso. Conjunção infeliz de desastres na economia e na política de uma forma nunca vista. O Executivo paralisado, incapaz de governar, sem conseguir negociar qualquer coisa com o Congresso. Elegeram um presidente da Câmara (Eduardo Cunha, do PMDB-RJ) completamente atípico, que tentou de todas as formas desmoralizar o Executivo, dificultando o ajuste fiscal",  declara Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Todo o ajuste nos preços de energia, com alta acumulada de 51,27% até novembro e de gasolina, com avanço de 18,61%, foi feito neste ano. Com isso, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechará o ano perto de 11%. A alta do dólar de cerca de 50% contaminou os preços.

"Houve um choque de custo muito maior do que se imaginava no começo do ano, com a energia muito mais cara, minando as expectativas e dificultando o ajuste", afirma Thais Zara, economista-chefe da Rosenberg Associados.

No início do ano, Thais previa expansão da economia de 1,5% e inflação de 7%. Hoje, estima queda de 3,7% do PIB e alta de preços de 10,8%.

O realinhamento de tarifas, diz Alessandra, da Tendências, fez o BC subir juros - foi de 11,75% ao ano em dezembro de 2014 para 14,25% agora - o que empurrou a economia mais para o fundo.

Houve mais fatores recessivos, como a paralisia das empresas, principalmente do setor de óleo e gás e de construção civil, com a Operação Lava-Jato da Polícia Federal. Afetada pelo escândalo de corrupção e pela queda na cotação internacional do petróleo, a Petrobras enfrentou problemas de caixa e cortou investimentos de forma drástica, o que teve impacto sobre a cadeia de fornecedores.

Apesar de o ajuste fiscal não ter sido feito com a intensidade que o governo precisava, o investimento público despencou e houve aumento de impostos com o fim da isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). A confiança para investir e consumir saiu de cena.

A crise política se agravou, a ponto de ter sido iniciado o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff na Câmara. Levy, considerado o avalista do ajuste fiscal, deixou o cargo antes de completar um ano. Foi substituído por Nelson Barbosa, até então ministro do Planejamento, visto pelos analistas de mercado como um dos gestores da nova matriz econômica que marcou o primeiro mandato de Dilma, com mais gastos públicos.

Parte dos analistas avalia que a troca na Fazenda e a crise política podem fazer o Brasil sofrer nova rodada de rebaixamento pelas agências de classificação de risco, com dólar subindo e recuperação só em 2018, quando há eleição presidencial.  "Podemos ter recessão a perder de vista", diz Sergio Vale. 

Outros creem que a troca possa melhorar a base de sustentação da presidente no Congresso, unindo o PT que pedia a saída de Levy, e ajudando a aprovar a CPMF, o que poderia trazer algum fôlego para as contas públicas. "Sinto deterioração muito rápida das expectativas para 2016, talvez haja um pessimismo excessivo", afirma Biancarelli, da Unicamp. 

 

Fonte: O Hoje