Hotéis 5 estrelas para mosquito

Existem quase 500 grandes criadouros que dificultam o combate de doenças na capital

Se fosse um negócio, a rede hoteleira para o mosquito Aedes aegypti em Goiânia seria promissor. Existem hotéis de médio porto, como os imóveis residenciais, que concentram 80% dos leitos para o responsável pela transmissão da dengue, chikungunya, zika vírus e ainda a febre amarela. Mas são as instalações maiores, as cinco estrelas, que têm preocupado as autoridades sanitárias. São 486 grandes criadouros, chamados pontos estratégicos, espalhados pela capital que dificultam o combate ao vetor.

Ferros-velhos, borracharias e pátios de veículos são alguns dos exemplos que sem o devido cuidado se tornam facilmente grandes criadouros. "São lugares de difícil acesso e que apenas um agente não consegue fazer toda a vistoria para pulverizar todos os rastros do mosquito. Tem lugar em que os carros ficam amontoados um em cima do outro e é ainda mais complicado. E todos esses pontos estratégicos do município já receberam notificações", relata o diretor de vigilância em Zoonozes da Secretaria Municipal Saúde (SMS), Gildo Felipe de Paula.

Nesses lugares os agentes utilizam uma bomba manual e borrifam inseticida residual pela área para tentar acabar com os focos. "É como uma armadilha. Quando o mosquito pousa para depositar os ovos, morre. É como podemos combater, porque imagina escalar uma pilha de carros. Não tem condição", explica o diretor.

O autônomo Natal Alexandra da Silva, de 59 anos, mora há 38 anos no Setor Jardim Europa e há mais de 20 convive diariamente com um grande criadouro. De frente à sua casa, do outro lado da Avenida Veneza, existe um depósito de carros a céu aberto da Secretaria da Fazenda (Sefaz). Nos veículos expostos, em sua grande maioria viaturas antigas da Polícia Militar, do Corpo de Bombeiros e até de municípios do interior, já foram identificadas larvas do inseto. O Estado também já foi notificado para resolver a situação e pode até ser multado se a situação permanecer a mesma.

Natal Alexandre diz que se sente exposto às diversas doenças transmitidas pelo Aedes aegypti. "Ali infelizmente é o maior depósito da região e não deixa de ser uma ameaça. A gente zela do nosso quintal, faz a limpeza correta, mas o poder público está descuidando. Podia dar outra utilidade para aquilo, fazer leilões", reclama.

A esposa dele, Luíza Lemes, de 60 anos, sabe bem o que é sofrer com a dengue. "É horrível. Tive febre altíssima e muita dor no corpo. Cheguei a ficar cinco dias internada. Por isso que na medida do possível a gente sempre cuida da nossa casa para evitar pegar de novo", detalha.

Combate

Com o retorno do período chuvoso essas áreas ficam ainda mais perigosas. A superintendente de Vigilância em Saúde da SMS, Flúvia Amorim, relata que nesses pontos específicos as visitas são diferenciadas. "A cada 15 dias os pontos estratégicos são vistoriados e se a situação permanecer, os proprietários são multados. Já tivemos, inclusive, comércios que foram interditados no município", conta.

A superintendente relata ainda que já havia sido firmado um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) junto ao Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) para endurecer o combate ao inseto na capital e que a proposta dos vereadores, sancionado pelo prefeito Paulo Garcia (PT), de duplicar o valor das multas aos donos de imóveis que forem flagrados com larvas do Aedes aegypti por mais de uma vez, veio ao encontro com esse acordo. "Nossa intenção não é multar. É promover uma mudança de comportamento. E para isso temos lançado mão de tudo o que podemos para combater esse mal. Mas se não tivermos retorno, temos que partir para outros meios, como a aplicação de multas mais severas".

Recorde

Esse ano a capital registrou um recorde absoluto no número de notificações e óbitos pela dengue. A cidade se encontra em situação de emergência em saúde desde o início do mês e, até a 50ª semana epidemiológica, foram registrados 79.499 casos, um avanço de 183,8%. Foram confirmadas 32 mortes.

O problema é que essa não é a única doença transmitida. Nesse mesmo ano foram computados 46 casos suspeitos de febre chikungunya na capital, contra 24 no ano anterior. E pela primeira vez a preocupação aumentou ainda mais com o zika vírus e a suspeita de relação com a microcefalia. Existem 16 casos suspeitos de zika e são investigados 22 casos de microcefalia relacionada ao zika.

 

Fonte: O Popular