Mercado de trabalho | Há vagas, falta acessibilidade

Empresas têm cota, porém mais de 44% dos postos para deficientes não são preenchidos, segundo SRTE-GO

Por lei, há reserva de mercado para pessoas com deficiência e empresas com mais de cem funcionários têm de cumprir cota (de 2% a 5%) para preencher seu quadro. Entre a regra e a prática, porém, o mercado de trabalho encontra abismo de informação e preparo que separam quem quer trabalhar das vagas. De acordo com dados da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em Goiás (SRTE-GO), 44% das ofertas não são preenchidas.

Segundo dado divulgado em setembro, haviam 1.339 empresas, no Estado, que deveriam cumprir cotas, o que somava 19.649 postos de trabalho, mas só 10.994 vagas (55,9%) foram preenchidas. Empresas alegam que há dificuldade para encontrar pessoas com a qualificação necessária para seus cargos, o que não ocorre somente para quem possui algum tipo de deficiência, mas um desafio do mercado como um todo.

Por outro lado, o acesso também é dificultado, a começar pelo espaço físico, passando pela comunicação - há falta de software para leitura da tela do computador para deficientes visuais, por exemplo - até o preconceito. Falta acessibilidade, resume a coordenadora geral do Fórum Goiano de Inclusão no Mercado de Trabalho das Pessoas com Deficiência e dos Reabilitados (FIMTPoder), Patrícia Souza Oliveira. "As vagas surgem, é uma questão de atitude, a começar no anúncio das vagas, no processo de seleção com RH até ter chefes e equipe preparados para recepcioná-los", diz.

Procura

Ao não pensar na diversidade, muitas vagas ofertadas também são incompatíveis com o desejo de colocação e até mesmo com as condições para o desempenho da atividade. "Pela falta de conhecimento, há grande oferta de atividades de chão de fábrica e estoquistas, por exemplo. Por isso, a lei que estabelece cotas é necessária", argumenta a coordenadora do FIMTPoder sobre o que torna a procura pelo emprego ainda mais árdua.

Ir além da cota não é a prioridade na maioria das empresas. "Têm empresas que querem e não sabem onde buscar. São poucas as que cuidam da captação e colocação das pessoas com deficiência", acrescenta Jorgete Leite Lemos, da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Brasil).
Até o primeiro sim, Harley Matheus Santos, de 34 anos, se decepcionou muito ao perceber que, por ser cadeirante, não poderia ser contratado. "Quando fala que é cadeirante, a resposta é que não estão adaptados e isso desanima, comigo aconteceu muito", explica. Há três anos ele foi ferido com um tiro nas costas em uma festa e perdeu os movimentos das pernas. Depois de pensar que a vida tinha acabado, quando se recuperou foi atrás de emprego e hoje trabalha em dois.
O primeiro, como atendente em call center, deu ânimo, mas ele precisava ainda complementar a renda. "Procurei a Adfego (Associação dos Deficientes Físicos do Estado de Goiás) para me encaminhar e percebi que era capaz." Antes do acidente, ele trabalhava com compra e venda de carros. Depois que adaptou o carro e percebeu que poderia recomeçar, há quase um ano ele trabalha no call center e no intervalo do almoço se desloca para o outro trabalho na recepção de um hospital. "Ainda falta incluir, existe muito preconceito. Onde eu trabalho nunca trabalhou um cadeirante", ressalta ao afirmar que não conhece muitos que conseguem ter uma jornada dupla, principalmente por causa da locomoção.

 

Fonte: O Popular