Celular na rua, imã de bandido.

Celular na rua, imã de bandido.

Morte de Nathalia Zucatelli chama atenção para roubos em que criminosos sabem que vão lucrar ao menos com telefone da vítima.

A ordem partiu de dois criminosos em uma motocicleta e com arma na mão. "Não corra." O pânico tomou conta da assistente administrativa Caroline Vieira, de 20 anos, na Região Central de Goiânia. Ela teve o celular roubado e, por pouco, livrou-se do mesmo desfecho da estudante Nathalia Zucatelli, de 18 anos, morta após sair do colégio, no dia 22 de fevereiro, após ser abordada por bandidos. "Eles apontaram a arma para mim e já entreguei o meu aparelho."

Celulares roubados têm diversas rotas no mercado paralelo do crime e são vendidos com preço bem abaixo do comum.

Só o Centro de Goiânia registra muitas vezes mais de 30 furtos e roubos de celulares por semana, segundo a delegada Jocelaine Braz Batista, titular do 1° Distrito Policial (DP). No total, há 26 DPs na cidade, considerando toda a capital, o número de ocorrências salta para 1.283, entre 1º de janeiro e 25 de fevereiro, de acordo com o Sindicato dos Policiais Civis do Estado de Goiás (Sinpol-GO).

No período, 23 pessoas perderam os aparelhos para os criminosos por dia. A Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária (SSPAP) não forneceram estatísticas desses crimes. A polícia informou, inicialmente, que os bandidos haviam levado o celular de Nathalia, que também foi abordada por duas pessoas numa motocicleta, mas depois verificou que ela havia deixado o aparelho em casa. Nas mãos dos criminosos, o celular roubado encontra uma diversidade de caminhos no mercado paralelo. "A maioria dos criminosos passa para frente porque quer se livrar do problema", diz Jocelaine. Nas proximidades da rodoviária de Goiânia, por exemplo, celulares são oferecidos nas ruas por menos de 100 reais, enquanto outro na loja do mesmo modelo e marca custa 900 reais. "Celular zerado, tela brilhando, sem nenhum problema", oferta um vendedor ambulante. "A gente dá o desconto para agradar o cliente e não amarrar o produto".

 

Disseminação de ofertas

 

As ofertas se repetem perto dos camelódromos em Campinas e nos pontos de maior aglomeração comercial ao longo da Avenida Anhanguera, que corta a cidade de Leste a Oeste. "Geralmente, celulares roubados são colocados à venda em sites de anúncios grátis ou nas redes sociais", acentua o delegado Kleyton Manoel Dias, titular do 5º DP e que já chegou a registrar cerca de 20 ocorrências de furto e roubo de celular por dia na região. Em uma das investigações, ele prendeu em flagrante dois homens com 14 aparelhos perto do Terminal Padre Pelágio, na Região Oeste.

Dias ressalta que os ladrões agem nas ruas porque sabem que existem compradores dos produtos roubados. "O criminoso atua já sabendo onde vai conseguir vender o que roubou", observa ele. O delegado regional da Polícia Civil em Goiânia, Alexandre Lourenço, lembra que receptação é crime, cuja pena é de um a 4 anos de reclusão. "Quem compra objeto de origem duvidosa sabe por causa do vendedor e da desproporção do preço", ressalta. A assistente administrativa não conseguiu recuperar o seu celular, muito menos a sua tranqüilidade. "Hoje sou uma pessoa assustada. Vivo com medo", desabafa.

 

Fonte: Jornal O Popular