Neste mês, período que registra a maior quantidade de negociações salariais no ano

Reajuste salarial mostra sinal de reação este mês

Os reajustes salariais apresentam os primeiros sinais de reação, embora ainda seja cedo para dizer que os efeitos da recessão e da inflação elevada sobre as negociações feitas no mercado de trabalho ficaram para trás. Dados preliminares antecipados ao Valor pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) indicam que a mediana dos 131 reajustes salariais já registrados pela instituição em maio está acima da inflação.

Neste mês, período que registra a maior quantidade de negociações salariais no ano, a mediana dos ajustes aponta alta de 10% tanto para acordos (fechados entre uma empresa específica e seus funcionários), quanto para convenções coletivas de trabalho (que englobam número muito maior de trabalhadores), acima, portanto, da alta de 9,8% estimada para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do período.

O boletim Salariômetro, que a Fipe divulga hoje, mostra ainda que, em abril, a mediana dos acordos e convenções coletivas homologados conseguiu repor ao menos a inflação do período, repetindo o mês de março, mas superando janeiro e fevereiro, quando a mediana das negociações ficou abaixo da inflação. No mês passado, um pouco mais da metade das negociações salariais ainda registrou perda real (51%), mas o percentual ficou abaixo do pico alcançado em janeiro, quando 67,5% dos ajustes perderam do INPC.

O coordenador do boletim, Hélio Zylberstajn, diz que é preciso cuidado com os dados de maio, que ainda são bastante preliminares, mas ressalta que, ao lado dos dados já fechados de abril, eles indicam "sinais de alguma reação". O especialista pondera que há amostras significativas que não conseguiram reajustes reais em maio, como a dos motoristas de transporte coletivo da cidade de São Paulo. A categoria ameaçou entrar em greve, mas acabou aceitando reajuste de 7,5%, o que indica que o quadro, diz Zylberstajn, ainda deve ser visto com moderação.

Em abril, os pisos salariais continuam menos generosos, mas reagem. No mês passado, o piso mediano de todas as negociações ficou em R$ 1 mil ou R$ 120 acima do mínimo, de R$ 880. No pior momento do ano, em fevereiro, essa diferença foi de apenas R$ 51. Mesmo em recuperação, a diferença entre o piso das negociações e o mínimo se mantém distante dos R$ 339 registrados em setembro de 2015. Em maio do ano passado, ressalta Zylberstajn, o piso mediano era R$ 1.030, o que, corrigido pela inflação, chegaria a algo em torno de R$ 1.130. "É outro sinal de moderação nas negociações", diz.

O boletim mostra também que existem negociações de redução salarial, mas são pouco frequentes. Das 184 negociações que trataram de ajustes salariais em abril, 21 estabeleceram redução de jornada acompanhada de corte salarial. Destas, no entanto, apenas três utilizaram o Programa de Proteção ao Emprego (PPE), criado pelo governo no ano passado para tentar conter o número crescente de demissões no setor produtivo.

Segundo Zylberstajn, as empresas alegam grande burocracia para adotar o programa. Além de precisar provar situação de dificuldade econômico-financeira para usar o PPE, a regra prevê ainda a necessidade de estar em dia com o Fisco, o que restringe o acesso e faz com que as empresas produzam acordos sem o PPE, ou simplesmente demitam, diz o especialista.

Nos últimos 12 meses, até abril, os maiores ajustes salariais reais foram conseguidos pelos setores de confecções e vestuário (0,7%); bancos e serviços financeiros (0,7%); e transporte, armazenagem e comunicação (0,2%). As categorias menos favorecidas no período foram a indústria do vidro e o agronegócio da cana, com reajustes 1,3% abaixo da inflação cada um. E o setor de extração e refino de petróleo, com reajuste 3,9% abaixo do INPC.

Por Estado, as negociações mais vantajosas foram feitas no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande Sul, lugares onde a alta mediana das negociações foi 0,2% acima da inflação. Na outra ponta, Roraima, Espírito Santo e Amazonas conseguiram os reajustes menos atrativos, de 1,3%, 0,9% e 0,4% abaixo da inflação, respectivamente.

Segundo o boletim, em fevereiro, último dado dessazonalizado, a folha salarial, estimada a partir do volume de depósitos vinculados ao FGTS, foi de R$ 96,2 bilhões, ou 1,2% abaixo do observado em janeiro (R$ 97,4 bilhões), e 6,9% menor que os R$ 103,3 bilhões de fevereiro de 2015.

Fonte: Força Sindical